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Conheça o Observatório Socioambiental do Sul e Sudeste do Pará
 

O Observatório Socioambiental do Sul e Sudeste do Pará (OSSEPA) é um espaço dedicado à divulgação, análise e debate de temas relacionados à sociobiodiversidade de uma das regiões mais complexas e estratégicas da Amazônia Oriental. A iniciativa busca articular conhecimentos científicos, saberes locais e experiências institucionais para compreender, de forma crítica e situada, os processos socioambientais que marcam esse território.

 

Por que o Sul e Sudeste do Pará?

  A delimitação territorial de um observatório socioambiental é, por si só, um desafio. Nenhuma definição é neutra ou plenamente suficiente. Ainda assim, a referência ao Sul e Sudeste do Pará mostrou-se a mais adequada entre as alternativas existentes, por ser amplamente reconhecida e permitir uma abordagem integrada, sem deixar de lado uma reflexão crítica sobre seus limites políticos e conceituais.

 

  Do ponto de vista ambiental, a região está situada em uma extensa zona de transição entre os biomas Amazônia e Cerrado. É majoritariamente drenada pela bacia hidrográfica Araguaia–Tocantins (Médio Tocantins), além de abranger partes das bacias dos rios Xingu, Pacajá, Acará, Moju e Gurupi. Essa configuração confere à região elevada diversidade ambiental, refletida na presença de espécies da fauna e da flora raras, endêmicas e atualmente ameaçadas.

 

  Na organização político-administrativa, o território corresponde à mesorregião do Sudeste do Pará e às regiões intermediárias de Marabá e Redenção (IBGE), abrangendo as regiões de integração do Araguaia, Carajás, Lago de Tucuruí e parte do rio Capim, segundo a divisão oficial do estado do Pará.

  Sob o aspecto histórico e étnico, trata-se de uma das áreas de ocupação humana mais antigas da Amazônia. Sítios arqueológicos na Serra dos Carajás comprovam presença humana há cerca de 12 mil anos. Ao longo desse período, diferentes povos indígenas ocuparam o território, com predominância histórica de povos Tupi e, posteriormente, de povos do tronco Gê. Atualmente, convivem na região 22 povos indígenas distribuídos em 39 municípios, além de indígenas de outras etnias vivendo em áreas demarcadas, rurais e urbanas.

 

  A partir do início do século XX, o avanço da sociedade nacional na região foi impulsionado principalmente pelo extrativismo vegetal (caucho, castanha, seringa), animal (pele de animais) e mineral (garimpos de ouro e pedra). Esse processo resultou na fixação de populações que deram origem a diversos grupos e povos tradicionais, como castanheiros, quilombolas, quebradeiras de coco-babaçu, ribeirinhos, pescadores, extrativistas, pequenos agricultores, povos de terreiro, ciganos, entre outros, cada qual com histórias, saberes e práticas culturais próprias.

  Desde a década de 1960, um novo ciclo de transformações se intensificou com a implantação de grandes projetos de infraestrutura, mineração industrial, expansão agropecuária e aceleração dos fluxos migratórios. Exemplos marcantes desse período incluem o Projeto Grande Carajás, a abertura de algumas das maiores minas de ferro, cobre, manganês, níquel e ouro do país, a Estrada de Ferro Carajás, siderúrgicas, as rodovias Belém–Brasília e Transamazônica, a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, os garimpos de Serra Pelada e Maria Bonita, além da criação de novos centros urbanos e da expansão de grandes latifúndios. Associadas a esses empreendimentos, a atividade madeireira e as carvoarias aceleraram de forma significativa a degradação ambiental.

 

  Como resultado, o Sul e Sudeste do Pará passou a concentrar alguns dos mais graves impactos socioambientais da Amazônia: extermínio de povos indígenas, violência no campo, massacres de camponeses, trabalho análogo à escravidão, contaminação de rios, persistência de garimpos ilegais, incêndios florestais frequentes e intensa perda de cobertura florestal, inserindo a região de forma central no chamado arco do desmatamento. Ao mesmo tempo, os conflitos fundiários deram origem a mais de 500 projetos de assentamentos rurais, onde vivem milhares de famílias.

  Apesar de abrigar alguns dos maiores empreendimentos minerais em operação no Brasil e um dos maiores rebanhos bovinos do país, a região apresenta profundas desigualdades sociais. Persistem baixos índices de desenvolvimento humano, elevados níveis de pobreza e violência, além de graves déficits de saneamento básico e ausência de muitos direitos humanos básicos..

 

  Nesse sentido, o Sul e Sudeste do Pará expressa, de forma emblemática, as contradições dos modelos de desenvolvimento impostos à Amazônia. De um lado, um modelo exógeno, orientado por grandes projetos e associado a conflitos sociais e degradação ambiental; de outro, modos de vida e projetos de futuro construídos por povos indígenas e comunidades tradicionais. A região se apresenta, assim, como um verdadeiro laboratório do que pode vir a ocorrer em outras partes da Amazônia.

  Um dos problemas recorrentes nesse tipo de debate é que ele costuma ser conduzido, majoritariamente, por pessoas de fora do território, incluindo pesquisadores, políticos e economistas que, muitas vezes, conhecem pouco da realidade local e produzem análises que não refletem plenamente as experiências vividas pelas populações da região, influênciando de forma negativa políticas públicas adequadas.

 

  Diante disso, o OSSEPA se propõe a reunir e sistematizar dados qualificados sobre biodiversidade, diversidade étnica e social, sociobiodiversidade e conflitos socioambientais, a partir da realidade das pessoas, povos e instituições que atuam e vivem no Sul e Sudeste do Pará. Os dados aqui apresentados não são definitivos: eles são construídos de forma crítica, validados por quem conhece o território e dialogam com a produção acadêmica desenvolvida na própria região. O objetivo não é excluir contribuições externas, mas valorizar e fortalecer os saberes, as experiências e as produções locais.

  O Observatório é um espaço aberto e em permanente construção. Convidamos povos indígenas, comunidades tradicionais, pesquisadores, estudantes, organizações da sociedade civil e instituições públicas a conhecerem, contribuírem e participarem desta iniciativa. Compartilhar dados, experiências, pesquisas e reflexões é fundamental para construir leituras mais justas, plurais e comprometidas com o futuro do Sul e Sudeste do Pará e da Amazônia como um todo.

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